sábado, 10 de maio de 2008

Noites de vinho

A noite passou,
como tantas outras,
com muito vinho
e tango ao fundo.
Valeu a pena!
Representei o papel
pra mim mesmo.
Talvez noutra noite,
com menos tango
e mais vinho bacante,
Não me escore na fumaça
de aspirações passadas
E represente o papel
que recuso desde que nasci.

Nov.2007

Elucubrações

É mais longo o caminho à noite,
Mas hoje a lua brilha convidativa
E a hospedaria não me seduz
com seus lençóis alvos.
Logo à frente a encruzilhada
(A mesma de sempre)
Hoje dobrarei à esquerda, pra variar.
O caminho é mais longo, dizem.
Mas talvez pise em buracos diferentes,
Ou nem tenham buracos pra pisar.
De qualquer forma amanhã
contarei histórias novas.

nov.2007

sábado, 12 de janeiro de 2008

Hoje assisti um filme bonitinho
daqueles feitos pra emocionar.
Não deu certo, insensibilidade desatenta.
O happy end, passou rapidinho.
nem deu pra notar.

Acordo com o sol num afago amoroso,
Um convite à um novo dia, afinal.
Fecho os olhos na tentativa de reter os sonhos
que embalaram minha noite. Padrão desigual.
Algo novo em meio a antigos pesadelos.
Desassossegos que marcavam a procura usual.

Acordo por fim. Percebo o mundo mais colorido.
Felicidade irritante, diriam alguns.
O desejo, mais forte do que a realidade,
Pinta os fatos com cores adequadamente atraentes.
Um jogo arriscado. Apostas altas.
Mas eu sempre fui bom no Truco.
11/Jan/2008

domingo, 6 de janeiro de 2008

CONTRÁRIO

Nasci velho, morrerei jovem,
Com a juventude que a esperança me deu.
Nasci sábio, morrerei ignorante,
Seduzido pelo enigma da vida,
A Esfinge que me devora.
Nasci pai, morrerei filho,
Pela necessidade de ser aninhado.
Nasci santo, morrerei pecador,
Com a humanidade de quem erra.
Sigo a vida ao contrário.
Nasci um homem e sua história,
Morrerei apenas Eu.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Hoje acordei absolutamente normal
Após concluída a batalha de anteontem
E recolhidos os cadáveres
que se amontoavam escandalosamente.

A velha rima já não serve
O amor pede o ardor em nova métrica
Simétrica, no movimento pulsional
Que lhe anima intrinsecamente.

Pela ânsia de falar o poeta
Segue construindo sua psicobiografia
Envolta em palavras nebulosas
Na esperança de ser incompreendido.

E que após a vigília noturna
E os ritos de despedida
Apenas uma lápide lisa
Sinalize a queda do sonho perdido.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Despedida

Hoje abri a janela não mais pra olhar a ti, senhora.
Abri a convite do sol, caloroso,
e da esperança que ele me trouxe.
Mas por velho hábito vou defenestrar
os resquícios de suas ordens insanas,
que sobre mim pairam ameaçadores.
Bato o tapete à janela
Despeço-me dos rastros de meus passos vazios.
Posto que não me pertenciam
Levo a carteira vazia,
mas trago comigo crédito em mim mesmo
como garantia de negócios futuros.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Ensurdecimento

Não sei o que é feito desses dias sombrios
de cujas noites silenciosas
revelações não trago.

Será que não visito mais
aquele mundo fantástico
no qual é dito o inadmissível?

Talvez a lua eclipsada
se envergonhe do rito mecanizado
deste vai-e-vem aborrecido.

E os seres míticos,
outrora tão familiares,
já não tenham acesso autorizado.

E o homem caminhe finalmente só,
sem os diálogos filosóficos
com sua mitologia particular

E aqueles deuses, semi-homens, semi-sonhos,
Pronunciem palavras em uma língua morta.
Algo torta. Pra quem cansou de escutar.


domingo, 14 de janeiro de 2007

Negação

Ante o desdém de teu sorriso vitorioso,
que me retém
e me exila à cama vazia
de meu corpo cansado de sonhar.
Pecho-me de pugilista
Ao derrubar tua empáfia
À passos de balé.
E, se amanhã, ao desjejum,
Apenas um lugar à mesa existir
Sentarei-me em regozijo.
Como se fosse eu o vitorioso
Por mais este não-querer.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Estranho-conhecido

Não sei quem é este estranho-conhecido
Um lugar invadido por bárbaros
Que nada pilharam,
Mas revolveram a terra que pisaram
em estranho rito de passagem.
Incompreensão nos olhos dos colonos assustados
Que se refugiaram nos escombros de antigas moradas
Intactas.
Mas que já não servem,
Pois se antes terra seca, agora vivificada.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007


Há dias sem palavras.
Nada a dizer.
Ruído preso na garganta
À espera de um xarope que o faça ceder.

sábado, 29 de julho de 2006

Epitáfio.

Que não seja dito que nunca tentei.
Tentei!
Ser como os outros, ou diferente deles.
Seguir padrões.
Repetir bordões.
Refletir uma imagem de Homem
Que Ele mesmo não conhece
Ou reconhece no espelho que me deram.
E ao final, cá estou.
Uma imagem comum, no catre perpétuo.
E se não tentei, eis o que sou.
Uma imagem simples, o que restou.

29/julho/2006

Amor marginal

Eu amo, tu amas, nós amamos este amor marginal
A expandir-se limitado pelas paredes do segredo
Florescendo obscuro sob as sombras noturnas.
Legítimo em sua clandestinidade,
Virtuoso na proibição que o eclipsa e o degrada.

A lua, indiscreta testemunha e confidente,
Contra olhares profanos protegendo está
Este sacro e marginal amor.

Filho apenas de nós dois
que em teu materno seio
a ansiosa ventura procuramos:
Saciar a sede de viver, e a fome de amar,
Simplesmente amar
Arrebatados por este intenso e clandestino amor.

outubro/2000

Super-homem.




Tenho defeitos e fraquezas...
morro de medo, muitas vezes...
de super-homem só tenho a capa,
que me protege.
Mas insisto... sou teimoso...
Sou criança mimada, quero o que quero.
E pronto! Será esta minha criptonita?

29/julho/2006
Ouve um barulho que lhe gera curiosidade,
Uma fera ronronando depois de batalha sangrenta.
Que lhe trouxe glória e perdição.
Com heróis indecisos e vilões pela metade.
Em suas mais peculiares manifestações.
Imagina confrontos épicos,
mas surpreende-se com conclusões óbvias:
suas personagens vivem ao redor,
Nem heróis e nem vilões.
São gente, apenas!

29/julho/2006

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Pipa amarela

Sopra o vento tranquilo,
Sopra sem parar.
Sopra o olhar do menino
Levando a pipa pro ar.

Voa a pipa amarela,
Voa sem parar.
Voa singrando os ares
Levando o menino a sonhar

Se fosse asas a pipa
Que o menino pudesse usar
Voaria o menino faceiro
Por montes, vales e mar.

O vento parou de soprar.
Já não voa a pipa amarela.
Nem voa o olhar do menino.
De novo preso à janela.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

Meta-existência.

Noite alta, lua cheia.
Pela escuridão caminha o Homem
Visitado por seres míticos
Que lhe narram sua meta-existência.
Com sons e imagens fantásticas

Sob o encanto de morfeu
Percebe que pensa onde não existe.
E trespassado por aquele sonho cumprido
(do qual lhe falou uma certa analista)
Reconstrói o mundo em si.

Percebe que existe onde não pensa.
Dizendo o que não é dito.
Expurgado por um novo rito.
Metafísico. Físico e Mental.
Que remodela o mundo apesar de irracional

17/abril/2006

quinta-feira, 6 de abril de 2006

O pensar e a pedra.

O mal do Homem
é que ele começou a pensar.
Então, inventou a dúvida.

Duvido, logo existo.
E existo em profusão.
Um tanto aqui e outro acolá.

Torno-me dois, ou mais,
Ou melhor uma junção.
Aquilo que fica a meio caminho.

E talvez eu seja aquela pedra,
Que nunca se esquecerá.
Mas que no meio do caminha fica.

Caminha? Não, espera!
Que um moleque displicente
a atire na janela.

(Ô, espera danada.)

domingo, 26 de março de 2006

O eco

Já não tenho mais palavras
pr’aquela batida que soa no peito.
Palavras se esgotam,
mas o silêncio não vem.
Fica o eco pedindo destino certo.
Repetindo a lamúria sem nome.

Odeio o cachorro latindo,
ou seu uivo pra lua.
Desejo cerrar os olhos e deixar
de existir por um momento.
Ouço, contudo, ecoando:
Entrega-me. Entrega-me.

Mas aonde?

E respondo:
Conforma-te. Conforma-te.
Pra quem não tem destino,
qualquer caminho é bom.

19/03/2006

sábado, 18 de março de 2006

Poema ignorado

Revolta-me a felicidade da ignorância
Seu olhar fechado, ouvido tapado e tato cerceado.
Revolta-me seu sorriso impassível
E o desdém por aquele que conhece.

Invejo a tranqüilidade da ignorância
Protegida da chegada do sol
pelas brumas da manhã.

Que me importa a cegueira voluntária?
Mas que é feito daquele que conhece?

Tira de mim toda a ciência
Arranca de mim toda a certeza
Pois de certo sei apenas o que quero
e não quero querer.
De certo sei apenas o que quero esquecer.


11.02.2006