domingo, 21 de setembro de 2008

Sonhos Mórficos


Sob o manto do deus dos sonhos
Passeio por um mundo que me fascina
O perigo me sorri
Brinco com o lobo cinzento, cor da noite
Enquanto fujo da criança feroz.
Se fosse ela aquele infante,
Ou um companheiro seu
Ou um amigo que lhe sucedeu
Que de um sonho mau expulsei
Delirante
Entenderia sua raiva, sua mágoa, sua ira
Entenderia
Se fosse a criança que pereceu
Fora do mundo do deus seu
Esquecida do mandamento
Que alimenta os filhos de Morfeu:
Sonha-te.

set/2008

domingo, 14 de setembro de 2008

Fênix



Tenho saudade de um tempo que não vivi.
No qual o rito demarcava sobremaneira
o momento do nascer e do luto.

Quem quebrou os paradigmas esqueceu-se
de que a dúvida é a essência humana,
e de nossa inabilidade com o intangível.

Afinal, a lápide lisa fora recusada,
e o fantasma retratado indevidamente.
Ofereceram-lhe sobrevida destruidora.

Ressurgido, assombrou aquele
que desejava sepultá-lo
em profunda inconsciência.

Sim, por estranhos ritos catárticos
o exorcismo foi realizado.
Mas a que preço?

Pagarei com a ventura vislumbrada,
e as promessas que me fizeste,
retornando à utópica satisfação fingida?

Não! Renascerei como a fênix,
das cinzas de tua empáfia surda.
Pois, tenho a esperança por vício.

jan/2008

domingo, 7 de setembro de 2008

Declaração de guerra

Hoje quero guerrear.
Declarar fim ao armistício,
Às palavras certas,
Momentos apropriados,

Sim, vou guerrear.
Invadir os sítios protegidos
Por esta mentira
De um bem-querer sem sentido

Se ao terminar estarei ferido
Ou abatido
Ou alçado à campeão da contenda
Ou sem renda que me garanta o sobreviver

Não me importa.
O que te importa?
Atiçaste minha impaciência belicosa
Ignorando nosso acordo de paz.

2006/2008

domingo, 31 de agosto de 2008

clic

De clic em clic a noite se esvai.
Desencontros cheios, palavras desconexas,
Papo sem sentido.
Tédio.
Nenhum rosto ao lado disponível.

Surges com um olá, bem simples.
Despretensiosa curiosidade.
Onde estás? Quem és tu?

Quem sou eu?!?
Se queres mesmo saber
Sou o que sou, e o que faço disso.
O que mostro e o que escondo.
O escondido mais que tudo.
Privilégio da tela em que me protejo,
ou desvantagem da tela na qual não te vejo?

Julho/2008

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Trocadilho

Penso
Pensas
Pensamento
Mente
Mentes
Minto em mim

Julho/2008

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Lotação

Desejo subir no lotação,
Deixar meu transporte particular,
E seguir, desta vez, com a multidão,
No anseio de viver sem esperar.

Desejo seguir em qualquer direção,
Mexer-me, soltar-me, caminhar.
Tendo por guia meu coração.
E seu antigo desejo de inovar.

Percebo, contudo, um aleijão,
Um músculo cardíaco e seu soar,
Repetindo, gritando, o mesmo refrão.

Aguarde, pare! Vou esperar!
Que alguém me ensine outra canção.
Parei, quedei, vou emperrar!

junho/2008

sábado, 26 de julho de 2008

Bem-te-vi

Sim! Gosto de brincar de faz de conta.
Algumas vezes sou herói, noutras sou vilão.
Quase sempre um canastrão
declamando versos que não são meus.
Gosto de ser um pássaro,
uma águia, um gavião.
Hoje serie um bem-te-vi, a cantar:
Bem te vi.
Pra te sorri,
quando recitaste tua canção.

domingo, 20 de julho de 2008

Toc toc. Pode entrar!
Entra e feche a porta
Deixe o frio lá fora.
Traga um vinho (se tiver).
Hoje quero me esquentar.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ao beija-flor da asa quebrada

Quem te negou o direito de voar,
este cruel mentiroso?
De certo invejava tuas belas asas.
De certo temia tua grandeza.
E desejava, a ti,
tão pequena quanto ele.

Jamais, por penitência,
tornes a pisar as pedras pontiagudas
de seu desdém. Somente por piedade,
àqueles que entregaram suas asas,
aceites tal sacrifício.
Não te cabe a culpa de sonhar!

07/jul/2008
http://preamar.blogspot.com/2008/07/os-ps-por-asas.html

terça-feira, 1 de julho de 2008

Luar vespertino

Ando por ai, vivendo e sentindo
Quando não me canso
de amores inventados e paixões vãs
Que adianta o sol desejar a lua
se eles se entrevêem apenas no segundo
no qual a noite ainda não é dia,
e o dia ainda não é noite...
Por mais que deteste o gerúndio
vivo esperando e espero vivendo
E tudo demora uma eternidade
O mesmo tempo que o menino demora
para tornar-se homem.

Junho/2008

Florescimento

Para uma flor que acabou de nascer
É difícil enfrentar os rigores da seca.
O sol queima as pétalas que lhe dão cor.
E amanhã, simplesmente,
seu perfume não inebriará os transeuntes.
E como quando dormia no solo arenoso
não despertará atenção.
Mas talvez a chuva ou o choro
Do jardineiro que fora seu fiel cultivador
lhe devolva a cor pastel que placidamente
contornava sua face.
E o perfume, sua antiga promessa,
Surja entre tantos outros que demarcam o caminho.

nov./2007

sábado, 10 de maio de 2008

Noites de vinho

A noite passou,
como tantas outras,
com muito vinho
e tango ao fundo.
Valeu a pena!
Representei o papel
pra mim mesmo.
Talvez noutra noite,
com menos tango
e mais vinho bacante,
Não me escore na fumaça
de aspirações passadas
E represente o papel
que recuso desde que nasci.

Nov.2007

Elucubrações

É mais longo o caminho à noite,
Mas hoje a lua brilha convidativa
E a hospedaria não me seduz
com seus lençóis alvos.
Logo à frente a encruzilhada
(A mesma de sempre)
Hoje dobrarei à esquerda, pra variar.
O caminho é mais longo, dizem.
Mas talvez pise em buracos diferentes,
Ou nem tenham buracos pra pisar.
De qualquer forma amanhã
contarei histórias novas.

nov.2007

sábado, 12 de janeiro de 2008

Hoje assisti um filme bonitinho
daqueles feitos pra emocionar.
Não deu certo, insensibilidade desatenta.
O happy end, passou rapidinho.
nem deu pra notar.

Acordo com o sol num afago amoroso,
Um convite à um novo dia, afinal.
Fecho os olhos na tentativa de reter os sonhos
que embalaram minha noite. Padrão desigual.
Algo novo em meio a antigos pesadelos.
Desassossegos que marcavam a procura usual.

Acordo por fim. Percebo o mundo mais colorido.
Felicidade irritante, diriam alguns.
O desejo, mais forte do que a realidade,
Pinta os fatos com cores adequadamente atraentes.
Um jogo arriscado. Apostas altas.
Mas eu sempre fui bom no Truco.
11/Jan/2008

domingo, 6 de janeiro de 2008

CONTRÁRIO

Nasci velho, morrerei jovem,
Com a juventude que a esperança me deu.
Nasci sábio, morrerei ignorante,
Seduzido pelo enigma da vida,
A Esfinge que me devora.
Nasci pai, morrerei filho,
Pela necessidade de ser aninhado.
Nasci santo, morrerei pecador,
Com a humanidade de quem erra.
Sigo a vida ao contrário.
Nasci um homem e sua história,
Morrerei apenas Eu.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Hoje acordei absolutamente normal
Após concluída a batalha de anteontem
E recolhidos os cadáveres
que se amontoavam escandalosamente.

A velha rima já não serve
O amor pede o ardor em nova métrica
Simétrica, no movimento pulsional
Que lhe anima intrinsecamente.

Pela ânsia de falar o poeta
Segue construindo sua psicobiografia
Envolta em palavras nebulosas
Na esperança de ser incompreendido.

E que após a vigília noturna
E os ritos de despedida
Apenas uma lápide lisa
Sinalize a queda do sonho perdido.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Despedida

Hoje abri a janela não mais pra olhar a ti, senhora.
Abri a convite do sol, caloroso,
e da esperança que ele me trouxe.
Mas por velho hábito vou defenestrar
os resquícios de suas ordens insanas,
que sobre mim pairam ameaçadores.
Bato o tapete à janela
Despeço-me dos rastros de meus passos vazios.
Posto que não me pertenciam
Levo a carteira vazia,
mas trago comigo crédito em mim mesmo
como garantia de negócios futuros.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Ensurdecimento

Não sei o que é feito desses dias sombrios
de cujas noites silenciosas
revelações não trago.

Será que não visito mais
aquele mundo fantástico
no qual é dito o inadmissível?

Talvez a lua eclipsada
se envergonhe do rito mecanizado
deste vai-e-vem aborrecido.

E os seres míticos,
outrora tão familiares,
já não tenham acesso autorizado.

E o homem caminhe finalmente só,
sem os diálogos filosóficos
com sua mitologia particular

E aqueles deuses, semi-homens, semi-sonhos,
Pronunciem palavras em uma língua morta.
Algo torta. Pra quem cansou de escutar.


domingo, 14 de janeiro de 2007

Negação

Ante o desdém de teu sorriso vitorioso,
que me retém
e me exila à cama vazia
de meu corpo cansado de sonhar.
Pecho-me de pugilista
Ao derrubar tua empáfia
À passos de balé.
E, se amanhã, ao desjejum,
Apenas um lugar à mesa existir
Sentarei-me em regozijo.
Como se fosse eu o vitorioso
Por mais este não-querer.